Acredito que muitas pessoas não saibam, mas no final de 2012 eu fui voluntária da Sea Shepherd em Taiji por 5 dias, ajudando as outras ativistas da ONG a monitorarem a ação dos caçadores, tirar fotos, vídeos e fazer transmissões ao vivo também para mostrar ao mundo o que estava acontecendo com os golfinhos e baleias de pequeno porte.

Quero contar para vocês um pouco da minha experiência em ser ativista de uma das maiores ONGs de proteção animal no mundo, a Sea Shepherd, e também, como foi ser ativista no Japão, um país conservador e ainda engatinhando sobre a questão dos Direitos Animais.

Ainda não contei sobre a história de como me tornei vegana ainda aqui no blog, mas esse assunto é um dos que estão na minha lista de postagens para fazer para vocês, mas resumindo, me tornei vegana em setembro de 2012, antes disso, fui vegetariana por 7 anos, e mesmo quando era vegetariana já tinha consciência sobre a exploração na indústria do entretenimento onde usam animais e desde que me tornei vegetariana, já tinha abolido esses lugares.

Me tornei vegana em setembro de 2012, e mais ou menos em novembro desse ano, fiquei sabendo que a Sea Shepherd estava recrutando ativistas para irem para Taiji para passar a temporada de captura e caça de golfinhos lá, que começa todo ano no dia 1 de setembro e vai até meados de março do ano seguinte, para monitorar e mostrar ao mundo o que estava se passando naquele pequeno vilarejo.

Mesmo antes de me tornar vegana, eu já havia participado de ações ativistas e protestos aqui no Japão junto com grupos de Direitos Animais de ativistas japoneses, então vi uma oportunidade de participar, ajudar, aprender e fazer parte de uma ação muito importante.

Na época, mandei e-mail para eles e quem entrou em contato comigo foi o Guiga, brasileiro que já veio para Taiji para ser cove guardian e também já esteve nos navios da Sea Shepherd para monitorar a caça de baleias nos oceanos.
Tive que preencher todo um formulário explicando certinho o porquê eu queria fazer parte da equipe, falar um pouco de mim, idiomas que eu falava, essas coisas, demorou alguns dias para a minha participação ser aceita e combinarmos o dia que eu estaria viajando para Wakayama, Taiji, para fazer parte da equipe.

E esse dia foi o dia 9 de dezembro de 2012!

Dia 1 – Blue Day (Ou, dia azul)

Na época confesso que eu não falava muito japonês, já o inglês eu sempre soube me virar bem até, mas mesmo assim, viajei de Nagoya (província de Aichi) até Taiji (província de Wakayama) 235km de trem com a cara e a coragem.
Chegando lá, fui muito bem recebida por duas ativistas que vieram da Austrália, elas me levaram no hotel para fazer o check-in (não ficamos em Taiji, ficamos numa cidade logo ao lado pois nenhum hotel além do que ficamos aceitavam hospedar os ativistas).
Depois disso, elas me levaram até o posto policial da cidade para eu poder me apresentar, isso era um dever que todos os ativistas tinham que fazer se fossem ficar em Taiji e serem voluntários da SS (abreviação de Sea Shepherd). Foi tudo muito tranquilo, tive que escrever algumas informações básicas sobre mim e apresentar o meu gaijintouroku (carteira de identificação japonesa) na época.
Depois disso, elas me levaram para conhecer a cidade e me mostrar onde os golfinhos ficavam cercados na enseada, como cheguei após o meio-dia e esse dia os caçadores não conseguiram capturar nenhum golfinho, elas aproveitaram para me mostrar a região e falarmos sobre a situação de Taiji e o que os ativistas faziam lá.
Foi muito triste em ver um local tão bonito sendo usado para aprisionar, capturar e assassinar animais tão belos e inteligentes, para falar a verdade, ainda não caia a ficha de que eu estava em um dos lugares mais cruéis para os animais do mundo.

A enseada

Depois disso, vimos um golfinho que havia sido capturado, sendo transportado para um caminhão.

Museu da baleia em Taiji.

O primeiro dia apesar de não ter acontecido nenhuma captura e matança, foi muito pesado emocionalmente para mim, é muito difícil você estar num local onde você viu através de um documentário tudo o que acontece e estar ali somente para documentar toda a ação e não poder fazer nada.

Dia 2 – Red Day (Ou, dia vermelho)

O dia começa começa muito cedo para os ativistas em Taiji. Me lembro de ter acordado umas 3:00 da manhã e sairmos do hotel umas 3:30 para chegarmos no porto e acompanharmos a ação dos pescadores às 4:00, SEMPRE acompanhadas por policias da cidade que mesmo quando estamos dormindo, ficam parados com o carro da polícia do lado de fora do hotel.
Esse “acompanhamento” inevitável são por dois motivos: para os ativistas não fazerem nada que seja contra a lei e que irá impedir o trabalho dos pescadores e para a nossa segurança também, visto que os ativistas NÃO são bem-vindos na cidade.

Momento que os barcos dos pescadores estão saindo do porto.

Barcos em alto mar na espera de um grupo de golfinhos.
Nesse dia, infelizmente, um grupo de golfinhos estava passando no local e eles começaram a encurrala-los.
A técnica que eles usam basicamente é emitindo um som com um bastão de ferro em direção ao fundo do mar, eles usam martelos para baterem nos bastões gerando vibrações sonoras ensurdecedoras para os golfinhos e desorientado-os.

Eles usam vários barcos para encurralar o grupo de golfinhos enquanto emitem o som pelos bastões de ferro, abaixo mostra o grupo de golfinhos já se aproximando da enseada (onde são selecionados, capturados e alguns são mortos para o consumo de sua carne).

Mãe e filho nadam desesperadamente tentando fugir.

Pescadores impedindo dos golfinhos fugirem.


É nesse momento que você sente que o pior está por vir. Há poucos metros de distância, eu e as ativistas acompanhávamos tudo. As outras ativistas já estavam há alguns dias em Taiji, algumas já tinham vindo outras vezes, outras, já tinham presenciado o que estava por vir, eu, estava aflita e com o coração na mão pois as imagens que eu já tinha visto no documentário “The Cove” começaram a vir na minha cabeça, uma sensação de impotência, revolta, raiva era muito grande, mas eu estava ali para registrar tudo e na medida do possível, ser forte o suficiente para fazer o trabalho.

O momento em que os treinadores do aquário de Taiji chegam no local para selecionar os golfinhos que serão capturados para serem treinados e depois vendidos para aquários do mundo todo, incluindo o Japão. Os golfinhos capturados geralmente são os mais novos, ou seja, são separados ali mesmo dos seus pais.

Pela movimentação da água, pode se ter uma ideia do quanto esse golfinho lutou para não ser capturado. Para capturar somente um golfinho, tinham seis treinadores ali usando a força para captura-lo.

Enrolam o animal numa rede de pesca e puxam com toda a força para colocarem ele ao lado do barco.

Depois de cobrirem ele numa lona, os pescadores e os treinadores levam os golfinhos capturados para outro local, onde serão inseridos numa área cercada onde são treinados para aquários.

pic by: @seashepherd

Os golfinhos ficam horas até serem selecionados, ou até dias como foi dessa vez que eu estive (foi uma das piores, inclusive, artistas e várias pessoas do mundo todo estavam pedindo para eles soltarem os golfinhos imediatamente, pois estavam ali presos, estressados, machucados e sem comer).

A seleção de golfinhos jovens continuou toda a manhã, é horrível você pensar em como eles devem estar sofrendo ali dentro da água, com o barulho ensurdecedor do motor dos barcos, movimentação de barcos e mergulhadores, sofrendo por terem sido separados de suas famílias (os golfinhos são um dos animais que são mais unidos) medo e fome.

Depois de selecionarem alguns golfinhos, vem o momento do abate dos mais adultos para o consumo de sua carne.
Você sabe o que vai acontecer pois os pescadores começam ir para debaixo da lona levando alguns golfinhos, ali você consegue escutar barulhos de algo se debatendo, tentando fugir, depois vem a mancha de sangue na água e esse foi um dos piores momentos da minha vida.
Me lembro claramente de estar tirando fotos e escutar um golfinho chorando, ele emitia um som que estava claro que ele estava chorando de medo e de dor, nesse momento eu não aguentei e me desabei de chorar.

pic by: @seashepherd

 

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

Golfinho desesperado tentando fugir enquanto os pescadores riem.

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

pic by: @seashepherd

Mergulhador e treinador do aquário de Taiji nadando no mar de sangue.

Barcos levando alguns golfinhos mortos. Depois do documentário “The Cove” e a vinda dos ativistas para o Japão, os pescadores começaram a cobrir os corpos.

A seleção de golfinhos durou horas, os pescadores abateram alguns golfinhos que “não serviriam” para serem treinados para aquários e isso durou a tarde toda, mas nesse dia os pescadores mantiveram o restante do grupo na enseada para no dia seguinte continuarem a seleção dos que iriam para cativeiro e os que iriam ser abatidos.

Dia 3 – Red Day (Ou, dia vermelho)

Fomos logo de madrugada para Taiji onde os golfinhos estavam em cativeiro para acompanhar os pescadores.
O dia foi o mesmo, treinadores mergulhando para selecionar golfinhos jovens, e depois, os pescadores selecionando os golfinhos mais velhos para serem abatidos.
Ficamos o dia todo abatidas, não conseguíamos conversar, não conseguíamos ter reação nenhuma a não ser focar na documentação de tudo o que acontecia, inclusive, com a transmissão ao vivo que estávamos fazendo no Facebook, onde centenas de pessoas do mundo acompanhavam incrédulas, tristes e revoltadas com tudo o que estava acontecendo em Taiji.

Nesse dia fizemos um vídeo para conscientizar as pessoas:

Dia 4 – Red Day (Ou, dia vermelho)

Segundo dia em que os golfinhos ficaram em cativeiro na enseada. Sem comida, estressados e machucados.
Conseguimos identificar a espécie de golfinho que eles capturaram, é o golfinho nariz-de-garrafa, a mesma espécie do filme “Flipper”, espécie muito inteligente e fácil de ser treinada.
O dia foi o mesmo que os outros desde a captura, vimos muitos golfinhos serem separados de suas famílias, muitos golfinhos lutando com todas as forças para não serem separados e capturados, foi muito triste.
À tarde fomos no local onde eles mantêm os golfinhos em cativeiro para treinamento, acompanhamos também alguns barcos de longe enquanto faziam o transporte dos golfinhos da enseada até esse local.

pic by: @seasheperd

E o dia terminou com aquela sensação de impotência e tristeza por estar ali e não poder fazer nada para liberta-los.

Dia 5 – Red Day (Ou, dia vermelho)

Último dia em que eu fiquei em Taiji junto com as ativistas.
O grupo de golfinhos que havia sido capturado 3 dias antes ainda continuava preso na enseada.
As ativistas contabilizaram um total de 60 golfinhos jovens capturados e 2 golfinhos que morreram nas redes tentando fugir.
O dia estava pesado, estava triste. Sentia que isso sugava todas as nossas forças pois estar ali do lado onde acontece uma carnificina, não é fácil.
Me despedi de Taiji com uma dor enorme no coração, mesmo sabendo de tudo o que acontece, você sempre tem esperanças e torce para que não aconteça o pior, e ir embora daquele jeito vendo aqueles animais tão lindos e inteligentes sofrendo, foi horrível.

Foram apenas 5 dias que fiquei em Taiji como voluntária da Sea Shepherd, 5 dias que eu jamais esquecerei na minha vida.

Acredito que muita gente que esteja lendo está matéria seja contra a matança desses animais, mas gostaria de lembra-los que a matança pela carne dos golfinhos só acontece porque a indústria do entretenimento usa esses animais, pois o foco não é a caça, e sim a captura, onde vem o maior lucro.
Os golfinhos capturados não são vendidos somente dentro do Japão, mas são vendidos também para o mundo inteiro, visto que Taiji é o maior exportador de golfinhos do mundo.
Se você financia aquários e outros locais que usam os golfinhos como entretenimento, indiretamente você está financiando essa crueldade e a matança desses animais também.

Caso não tenham assistindo, recomendo muito o documentário “The Cove” (em português, “A Enseada”) para entender sobre o que acontece em Taiji.

Parte I:
https://www.youtube.com/watch?v=R1FjgbVHYE8&t=231s
Parte II:
https://www.youtube.com/watch?v=hk0t5Jq_6kc
Parte III:
https://www.youtube.com/watch?v=Y7vAH0tK0TA

Algumas palavras sobre o assunto em japonês:

イルカ漁反対 (iruka ryou hantai): contra a pesca de golfinhos
水族館反対 (suizokukan hantai): contra aquários
イルカ (iruka): golfinho
水族館に行かないで下さい (suizokukan ni ikanai de kudasai): não vão a aquários

Os animais não existem para serem propriedades do ser humano!
Cada animal na terra tem a sua função, devemos respeita-los e vivermos em harmonia!
Não financie essa crueldade, não apoie entretenimento que use qualquer espécie de animal!

 

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